O início da década de 70 foi um período marcante para o esporte a motor no Brasil. O país já começava a se destacar no cenário internacional do automobilismo com a ascensão de pilotos como Emerson Fittipaldi, Wilson Fittipaldi e José Carlos Pace. Emerson conquistou o primeiro campeonato mundial em 1972 e o Brasil sediou seu primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1 nesse mesmo ano, uma edição que não valeu para o campeonato, apenas um teste para receber provas oficiais a partir de 1973 no autódromo de Interlagos.
No Brasil, o esporte a motor vivia uma fase áurea. Diversas e fortes categorias se estabeleciam, como a Formula Ford, criada em 1970, além das categorias de turismo como a Divisão 1, a Divisão 3, além de uma categoria exclusiva para esporte-protótipos, a Divisão 4. As provas de longa duração como as Mil Milhas Brasileiras, 500 Quilômetros de Interlagos e as 12 Horas de Tarumã eram um enorme sucesso. Os autódromos lotavam e a cobertura de jornais e revistas, como a Quatro Rodas e AutoEsporte garantiam a informação para o público aficcionado.
E foi nesse cenário tão frutífero do automobilismo nacional da primeira metade da década de 70 que surgiria um grande profissional do esporte a motor nacional: Adilson Ayres, que na época trabalhava como mecânico. Prestou importantes serviços para o piloto Pedro Victor Delamare, um dos grandes nomes do automobilismo brasileiro, que naquela época disputava as principais categorias nacionais, como a Divisão 3 e os protótipos da Divisão 4 além das Formulas Ford e Vê.
Ayres desempenhou um excelente trabalho com Pedro Victor por um bom tempo, até ter os seus serviços indicados para a família Fittipaldi, que começava em 1974 um projeto nunca antes visto no Brasil. A criação da primeira – e única até hoje – equipe de Fórmula 1. Na época com um pouco mais de 18 anos, ainda trabalhando como mecânico assistente, foi contratado pelos Fittipaldi para trabalhar no projeto Fórmula 1. Foi praticamente um dos primeiros colaboradores dessa nova empreitada que se iniciava nos primeiros meses de 1974.
Adilson Ayres ajudou na organização e instalação da fábrica antes mesmo de iniciar seus serviços nos carros de corrida. Ele viu chegar na equipe o projetista Ricardo Divila além de seus futuros companheiros de trabalho Darci de Medeiros, Geraldo Alves, Yoshiatsu Itoh, Joel Queirós, Luis Henrique Colinha e tantos outros que ajudaram a formatar a equipe Copersucar Fittipaldi. Viu nascer a equipe e o primeiro carro de Fórmula 1 brasileiro, o Fittipaldi FD-01. Trabalhou diretamente na construção dos bólidos e entrou para a história como um dos integrantes deste projeto único no nosso automobilismo.
Ayres seguiu com a equipe Fittipaldi pela temporada inaugural da equipe na Fórmula 1 em 1975 e deixou o time em 1976. Saiu de lá com a tarimba e experiência mais do que adequadas para atuar na categoria máxima de Fórmula do automobilismo brasileiro: a Super Vê. Lá trabalhou com Nelson Piquet, que sagrou-se campeão da categoria naquele ano. Seguiu com Piquet para mais uma epopeia internacional: a disputa do concorrido campeonato inglês de Fórmula 3. O título foi conquistado por Piquet no ano de 1978, depois de oito vitórias na temporada, coroando mais uma vez o belíssimo trabalho de Adilson Ayres.
Adilson Ayres voltou para o Brasil no ano de 1981, para continuar os seus ótimos serviços prestados ao automobilismo. Voltou a trabalhar na Fórmula Super Vê, dessa vez aplicando conceitos que conheceu no trabalho realizado na Europa. Criou diversos elementos aerodinâmicos que na época eram tendência no esporte a motor mundial em geral e nas categorias de topo de Fórmula em particular. Eram os carros-asa. Adilson trabalhou nos carros dos pilotos Dárcio dos Santos, Élvio Divani, Alfredo Guaraná Menezes e outros. Por conta deste trabalho, ganhou o apelido que seguiu com ele pelo restante da vida: “Asa”.
Adilson Ayres, o “Asa”, continuou seu trabalho no automobilismos e nos carros. Chegou a construir um esporte protótipo e continuou sua ótima relação com o tricampeão mundial Nelson Piquet.
Há alguns anos, Adilson Ayres foi acometido por um acidente vascular cerebral e desde então, infelizmente, sua saúde veio se deteriorando. No último dia 6 de dezembro, Adilson Ayres nos deixou.
Adilson Ayres, o “Asa”, cumpriu com maestria o seu papel na história do automobilismo brasileiro. Assim como a asa de um carro de corrida, foi elemento primordial na conquista de títulos e formação de pilotos, além de ter sido parte integrante e importante do mais audacioso projeto do esporte a motor nacional, a única equipe brasileira da história da Fórmula 1.
Adilson Ayres voou nas asas deste esporte fascinante que é o automobilismo.
Rodrigo Carelli - Jornalista especializado em esporte a motor e cultura automotiva - criador do Blog do Carelli e do Canal do Youtube Entusiastas Sobre Rodas. Comentarista de automobilismo e colaborador no Portal High Speed Brazil. Jornalista na sessão de história da Revista Grid.